Quebra-cabeça do “eu”

Com as muitas horas que tive para pensar nos últimos dias, me ocorreu uma questão. Em todas as línguas que consegui pensar (ou pesquisar rapidamente), o número de letras para palavra que representa “eu” é sempre entre 1 e 3.

Yo, ego, I, je, ana, wō, ich, eu. Entre línguas românticas, saxônicas e semíticas, parece que há algum tipo de contrato implícito de que essa palavra, em especial, deveria ser curta e clara.

(Claro que provavelmente há alguma explicação científica para esse fenômeno. Porém, como eu não sei qual é e estou pensativa, só me resta criar a minha própria teoria.)

“Simples” e “claro” são dessas palavras que considero proibidas para serem usadas na caracterização de algum “eu”. É, no mínimo, paradoxal que estas possam ser adjetivos para a palavra que designa essa tal coisa. Coisa essa que estranhamente descreve a todos nós e não descreve o outro, simultaneamente.

Aprendi, em algum momento da vida, que o conceito de “eu” é um dos primeiros que a criança aprende dentro da relação humano X mundo. E é ainda relacionado com o “eu” que essa criança terá sua primeira crise existencial, quando for forçada (pela lei da selva humana) a entender que é ela quem gira ao redor do Sol, não o contrário.

Na verdade, se analisarmos bem, todas as crises existenciais que essa criança terá ao longo da vida serão por conta da monossílaba “eu”. Meus problemas, minha relação com os problemas dos outros, eu.

Apesar de toda essa carga, positiva ou negativa – daí depende apenas do referencial -, a palavra é (e aparentemente tem de ser) “simples” e “clara”. Nós todos de fato passamos um bom tempo trabalhando e lutando para que a essência intransferível da palavra também empunhe essas duas “qualidades”.

Mas afinal, o que são qualidades, não é mesmo? “Simples” pode soar positivo e fácil, mas admito que prefiro muito mais o meu “eu” de agora, assumidamente desafiador e enigmático. O meu “eu” às vezes é decassílabo, às vezes é escrito em código binário e alguns dias em morse. Poucas vezes é só “eu”, mas também não deixa de ser.

Se o seu “eu” é ou não é, ou deixa de ser… Não importa. Só quem tem que saber é você.

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