Clave de sol

Com 10 anos, ganhei um violão. Meu pai tinha voltado de uma de suas viagens com o instrumento que, na época, me parecia enorme e ferramenta de um sonho impossível. Foi então que eu comecei a me envolver com a música.

Sempre ouvi que, quando uma criança aprende música, se torna muito mais criativa e desenvolve mais amplamente algumas habilidades cognitivas. Por isso, posso colocar toda a culpa na música por ser como sou. Sendo mais justa, jogo a culpa na arte em si, não só na música.

A arte se faz presente na minha vida de tantos modos que talvez eu nem me lembre de todos. Me encanto pelo visual e imagético, pelo movimento e o som, e pelas palavras, escritas ou ensaiadas. Se um dia a humanidade alcançar a imortalidade – e eu espero que não -, a cada século de vida me dedicarei a uma forma de arte diferente.

Essa lembrança me veio quando eu reparei no brinco de um aluno, durante o estágio. Era uma clave de fá enorme, feita de arame dourado, provavelmente moldado à mão. Achei curioso ser uma clave de fá e logo imaginei que o garoto deve ter algum conhecimento de música e partitura. Ver esse símbolo me fez lembrar que nunca cheguei a aprender a clave de fá e, por mais que meu gene perfeccionista de autocobrança já estivesse se agitando com essa falta de conhecimento, mentalizei que está tudo bem não saber de tudo.

Sobre o conhecimento, gosto de pensar que o que realmente importa é saber o suficiente para conseguir expressar tudo o que eu quiser. Talvez seja essa razão da minha busca constante por novos saberes e entendimentos, cada vez quero me expressar mais e de jeitos diferentes.

Pode ser que o rapaz do brinco nem saiba a prática musical. Ou talvez ele saiba que a clave de fá é “menos usada” e foi uma maneira criativa que ele encontrou de representar sua individualidade. Mas pode ser também que ele só tenha achado que era um trabalho artesanal bonito e resolveu usar. Nunca vou saber.

Ninguém é obrigado a ver poesia em tudo. Confesso que às vezes esqueço disso e tento impor ao mundo minhas visões filosóficas sobre a calcinha rendada da vizinha pendurada no varal. Nem todo mundo vai ter ou querer saber do meu olhar holístico sobre o ângulo em que os raios de sol incidem pela renda. E tá tudo bem também.

Tá tudo bem assim como tá tudo bem não saber usar a clave de fá – e nem tanto interesse em descobrir como usá-la. Afinal, cada um é cada um. E essa é a parte bonita.

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