Está tudo bem até que não está mais

Eu lembro de quando eu pedi ajuda, de verdade, pela primeira vez. Talvez não seja o tipo de acontecimento do qual é possível se esquecer. Estávamos em um evento, eu e minha família, quando eu tive que controlar, por muitas horas, a urgência de me romper em lágrimas. Logo depois eu já estava indo em consultas psiquiátricas semanalmente, tomando remédios e, para o bem ou para o mal, diagnosticada.

Liberdade poética à parte, minha vontade ali era vontade de chorar. Um ato tão comum a todos, mas tão velado e preferivelmente secreto, é a simples vontade de chorar. Ainda me falta entendimento quanto ao porquê de ser um tabu tão profundo o choro, seja para homens ou para mulheres, os maricas e as sentimentais, como dizem. O choro, tão purificante, sendo visto como símbolo supremo da fraqueza humana, não me contenta.

Por vezes ouvi coisas como “engula o choro”, “quanto mais você chorar pior vai ser”, “você está errada e ainda chora”, “você só chora”. Nunca entendi o porquê. Qual mal faz o meu choro a quem assiste? É incômodo. Ninguém sabe como agir quando tem alguém chorando por perto. Não é educado perguntar se a pessoa está bem (já que obviamente não está), mas exigir que ela interrompa o choro é, por alguma razão, completamente aceitável.

Eis que agora digo o que o choro realmente significa. Em primeiro lugar, é música. Não só porque é de fato um gênero musical ou porque a cadência de soluções e respirações desesperadas formam algum tipo de sinfonia melancólica. É música porque é expressão, e música é expressão. É o dizer quando não se pode ou não se sabe o que dizer. É o sentir quando não se deve ou não se entende o que sente. É ser. Se você chora, você é. A la Descartes.

Minha relação com o choro também foi de altos e baixos. Até o fim da adolescência, eu sempre chorei muito, e odiava ser assim. Eu não conseguia segurar quando estava em alguma discussão ou quando estava chateada, e chorar na frente dos meus pais era meu maior terror e minha mais frequente rotina. Um pouco mais velha, a vida aconteceu e de repente eu não conseguia mais chorar. Eu até tentava, mas não conseguia. Quando eu consegui finalmente, foi de maneira menos frequente, menos ardente e menos embaraçante.

Ficar sem chorar não é algo positivo. Não chorar é não sentir. E o que é a vida sem sentir? É o que eu me perguntava nesse período, uma pergunta perigosa, se é permitido dizer. O choro, assim o vejo, é um termômetro. Se é alguém que chora pouco, quando acontecer é porque está no seu limite. No caso de alguém que chore muito, talvez o limite seja não ter forças para a chorar. E esse ápice, o choro ou o não choro, é tanto escalado como repentino.

O limite emocional é escalado porque para se chegar nele deve se ter suportado um tanto razoável, sendo o tanto variável para cada um. Ao mesmo tempo é repentino porque dificilmente o alguém em questão se dá conta que está chegando ao limite e, quando chega, se vê frente a uma surpresa desagradável. É nesse momento, como previu o título, que se entende que tudo está bem até que não está mais.

Quando não se sabe a origem ou o porquê da dor insuportável que lateja no âmago de seu ser, chore. Chore até seus pulmões doerem mais que a tal dor. Chore sozinho ou acompanhado. Chore soluçando ou em silêncio. Mas chore.

Deixe seu corpo liberar a emoção. Esta, que não é só um estado da mente e com certeza deve existir alguns artigos científicos para provar o meu ponto, necessita de liberação física. E emoção da dor precisa do choro.

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