Eu me lembro de você

Tenho a impressão de que todos temos (ou ao menos gostaríamos de ter) um fato ou característica curiosa sobre nós mesmos, algo que podemos contar para um novo conhecido e causar admiração, estranheza ou, para os mais afortunados, espanto.

A curiosidade que eu costumava contar com muito orgulho era sobre a minha capacidade quase infalível de conseguir me lembrar de pessoas. Esta, que é uma habilidade que se manifesta em mim de diversas formas, até hoje me parece “incomum” a outros seres humanos, seja porque de fato têm a memória curta ou porque preferem fingir que a têm.

Seja qual for a resposta individual de cada um, eu jamais conseguiria fingir a memória curta, uma vez que minha expressão quando vejo alguém que conheço é, de acordo com meus companheiros de cotidiano, pouco neutra. E geralmente tenho uma urgência de comentar com alguém, exceto o indivíduo em questão, de que conheço tal pessoa e de onde a conheço.

A primeira e inútil manifestação desse dom é a minha capacidade de reconhecer atores em suas mais diversas fases e personagens e listar outras obras das quais participaram, bem como ligar a voz ao cantor e também listar outras músicas as quais interpretam. Admito que pode ser muito divertido em reuniões sociais, mas geralmente só é irritante, já que não consigo impedir minha mente de fazer listas dos trabalhos dessas pessoas.

A segunda e, provavelmente, mais assustadora manifestação, é minha habilidade de me lembrar de praticamente todas as pessoas que já passaram algum tempo comigo, e pior, conseguir reconhecê-las após anos sem convivência. Isso acontece desde colegas do ensino infantil até o fulano que dividiu o guarda-chuva comigo no primeiro dia de faculdade. Geralmente eu me lembro do nome e e alguns outros fatos extras, mas algumas vezes só me lembro da situação em que estive com a pessoa. Seja como for, eu me lembro.

Como já deve ter ficado claro, essa já foi uma característica da qual eu me orgulhava de possuir. Eu sentia que tinha um certo nível de onisciência sobre as pessoas que passavam pela minha vida, e, bônus, jamais passaria vergonha se alguém me reconhecesse de volta. Mas esses mesmos pontos que me faziam ter orgulho foram os que me fizeram repensar a grandiosidade da minha memória.

Eu poderia reconhecer quantas pessoas fossem, mas eu sempre passava despercebida. Isso porque, quando eu tinha de fato a oportunidade de me fazer conhecer, eu pensava que não faria diferença para aquela pessoa me conhecer ou não. Eu me inferiorizava tanto a ponto de achar interessante eu conseguir lembrar de alguém que, teoricamente, não sabia da minha existência.

E daí o segundo ponto também era derrubado, afinal, como eu poderia ser onisciente sobre a vida de alguém que eu só sabia o nome? E qual é de fato a vantagem de “saber de tudo”? Nenhuma, já que não é real.

Gosto de pensar que a grande razão de isso existir em mim é a minha fascinação por observar. Observar os cenários, as situações, as pessoas. Talvez as pessoas que não tem esse fascínio deixam suas memórias sobre pessoas se esvaírem mais fácil, não sei. Talvez essas memórias nem sejam criadas. Mas em mim elas se mantém e, apesar de eu não ter mais o prazer de contar que me lembro de todos, eu ainda tenho o prazer de lembrar.

Acervo pessoal

Eu sempre digo que sou o tipo de pessoa que precisa de tempo para si.

Não um tempo metafórico, mas um tempo real, em que eu não precise lidar com pessoas e nem com nenhuma das minhas obrigações. Descobri que esse tempo não era suficiente quando percebi que falava demais sobre ele, mas não fazia nada para consegui-lo ou para aproveitá-lo.

O primeiro passo foi arranjar o tal do tempo. Eu trabalhava “seis horas” por dia, tinha aulas no período noturno, estudava nos fins de semana e namorava quando dava. Para alguém tão ambiocioso quanto eu, minha situação naquele momento – pelo menos aparentemente – era perfeita. Eu estava estagiando em uma empresa incrível com colegas mais incríveis ainda, as disciplinas na faculdade estavam fluindo bem e eu estava dando conta, e além de tudo, tinha acabado de começar um relacionamento com um cara super bacana.

No fundo eu sabia que precisava deixar alguma daquelas coisas de lado, mas me parecia que todas eram muito importantes e se eu abandonasse alguma, não teria outra oportunidade tão boa depois. Meses nessa discussão interna, descobri que o que mais me desgastava era o trabalho, então decidi me dar o tempo de procurar algum que exigisse um pouco menos do meu psicológico e emocional.

Feito isso, eu tipo o “tempo para mim”. Nos primeiros (4) meses esse tempo foi gasto da maneira mais improdutível possível: fazendo nada. Eu dizia que o objetivo não era estudar mais ou ficar o tempo todo procurando um emprego, mas no final eu não fazia nada. E me sentia mal do mesmo jeito de quando eu não tinha o tempo.

Foi um dia desses, há não muito tempo, que entendi que “tempo para si” é um tempo gasto fazendo coisas que te enriqueçam, que te regarreguem, que te façam bem. Nesse dia eu tinha planejado um compromisso, no centro da minha cidade, que acabou mais cedo do que o planejado, e que me proporcionou uma experiência muito interessante.

No caminho para o ponto mais próximo onde passaria o ônibus para a universidade, percebi que o MIS da cidade (Museu de Imagem e Som) estava aberto. É um dos meus lugares favoritos e há muito tempo que eu não aparecia por lá. Entrei. O lugar vazio. Provavelmente só eu e o guarda de segurança estávamos lá. Perfeito.

Tive um ímpeto muito estranho ao meu eu usual de querer tirar fotos minhas ali. Um dia antes estava tentando encontrar uma nova foto de perfil para uma rede social e aquela era uma oportunidade muito boa.

Acho que tirei mais de 30 fotos. E não eram selfies.

Foi um momento de uma quase epifania em que eu simplesmente não me importei com a possibilidade de chegar alguém e me flagrar naquela situação, que em outro dia me seria constrangedora. Regulei meu celular nos mais diversos ângulos e mais inusitados pontos das salas (até dentre do trombone coloquei o coitado) para tirar as benditas 30 fotos.

O tempo passou tão rápido que até me atrasei. Esse atraso me fez perceber que aquilo é “tempo para si”. Sair ao sol e fazer maluquices, se maluquice também for um hobby seu.

Se eu estivesse em posição para poder dar algum tipo de conselho, este seria: se você não tem tempo, não perca tempo ficando sem tempo. Se tem tempo, não perca tempo não fazendo nada (de bom) com ele.