A vez em que fui rainha

Para os meus amigos que lerem isso, me desculpem por estar contando essa história mais uma vez. Eu prometo que vocês só vão ouvi-la de novo quando chegar alguém novo no nosso grupo.

Até agora, minha vida pode ser dividida em dois grandes momentos. Gosto de chamar o primeiro de A Infância e o segundo, o qual ainda está em construção e desenvolvimento, de A Descoberta. Em ambos os momentos fui uma garota privilegiada, mas em ambos os momentos também tive problemas. Problemas de naturezas e intensidades diferentes a cada vez.

Acho que entrei na segunda fase com 18 anos. Sei que parece clichê dizer que “virei adulta aos 18”, mas não é essa a verdade. Acredito que esse segundo momento já estivesse em andamento antes mesmo que eu me desse conta do que acontecia dentro de mim, mas não sei até que ponto vale a pena periodizar minuciosamente tudo o que acontece na vida. A questão é que eu finalmente tinha perdido o medo de descobrir coisas sobre mim, sobre os outros e sobre o meio em que todos vivemos. Perdi o medo de explorar o mundo.

Os eventos que serão narrados a seguir podem fazer parecer que “explorar o mundo”, para mim, significa de fato sair viajando por aí. Isso pode ser parte da concepção, mas não é ela inteira. Na verdade, ainda estou formulando minha ideia sobre o que significa isto.

Pois bem. Aos 19 anos e meio, eu estava perdida (aliás, fazem só 5 dias que não tenho mais 19, perdoem). Não me sentia bem em casa, não me sentia bem em mim, não me sentia, por assim dizer. Então, surgiu uma oportunidade de sair um pouco dessa realidade e eu me joguei.

Eu nunca tinha viajado sozinha para nenhum lugar muito longe e nem meus pais tinham estado tanto tempo longe de mim. Apesar de tudo que poderia dar errado com o meu estado emocional como estava, eu passei 1 mês na Argentina, sozinha. Consegui sozinha, planejei sozinha, paguei sozinha e viajei sozinha. Parece muita solidão para alguém que diz que não estava com a melhor saúde mental, mas era tudo que eu precisava.

Das muitas coisas que passaram e que eu poderia ter escolhido para contar, escolhi uma. Perto do fim da minha estadia na Argentina, aconteceu um evento em específico que me marcou muito. Eu fui eleita rainha.

Tudo aconteceu de um jeito maluco. Era uma sexta-feira e Dani tinha me convencido a ir conhecer essa boate muito famosa ali na cidade, que uns amigos que ela tinha feito na rua (?) a convidaram. No país gaúcho as festas começam muito tarde, então nos encontramos em uma praça algumas horas antes, para espantar o sono. Passei tanto frio que tive certeza de que a noite seria péssima.

A balada estava demorando para encher e eu não estava bebendo naquela noite, o que tornava tudo mais difícil. A música que tocava ainda era só eletrônica e, pode parecer mais clichê ainda, mais meu sangue latino só ferve com ritmos latinos. Não estava fácil. Mas aos poucos a música foi mudando, o calor humano foi aumentando e eu finalmente comecei a curtir a loucura.

Sempre digo isso para os meus amigos e eles nunca acreditam, mas a música me inebria por si só. Não preciso de substâncias extras para ser elevada espiritualmente se tiver música e gente dançando. Tudo isso pode ser resumido ao fato de que adoro dançar.

Em um dado momento, uma dupla de reggaeton subiu ao palco e, após a performance, anunciaram que a competição para eleger “la reina e el rei del boliche” (a rainha e o rei da balada) começaria e, bem, eles precisavam de voluntários. Quando me dei conta, meus amigos e as pessoas à minha volta estavam apontando para mim e, em um piscar de olhos, um moço jamaicano já estava me erguendo para subir no palco. A tarefa era simples: tínhamos que dançar e conquistar os aplausos do público.

Bom, eu ganhei, fim.

Para mim não foi o fim porque eu sou eu. Tudo que acontece na minha vida me faz pensar demais e com essa conquista não foi diferente.

Esse dia foi o grande encerramento da minha viagem e da minha jornada de meses para chegar ali. Minha vitória foi o símbolo de que finalmente eu não sou tão tímida e introvertida quanto muitos me disseram que eu era, por muitos anos. Finalmente eu era a “life of the party” de um jeito que eu me sentia bem, sem exageros ou excessos.

As pessoas vinham me parabenizar e queriam me conhecer depois do jogo. Eu era uma celebridade ali, a estrangeira que nocauteou os argentinos. Tiraram fotos comigo, gravavam vídeos, me perguntavam dos movimentos de dança, era absurdo. E tudo o que eu conseguia fazer era rir e agradecer. Acho que nunca estive tão feliz.

Talvez soe mais narcisista do que parece quando formulo esta ideia na minha cabeça, mas, às vezes, é bom ter nosso ego reafirmado. É bom se sentir querida e desejada, vencer algo pela mais pura habilidade vã que você tenham, curtir a vaidade e frivolidade. E ali me aconteceu tudo isso e fez um bem danado para a minha autoestima.

O que quero dizer com tudo isso é: talvez eu não precise ser a mente pensante, política e crítica o tempo todo. Talvez, em alguns breves momentos, eu precise ser a garota fútil que todo mundo adora criticar mas, ao mesmo tempo, a qual desejariam ser. Não sei se estou certa, talvez me aconteça alguma coisa que me faça mudar de ideia de novo.

E mudar de ideia é lindo.